Estava quase na hora de encontrarmos as meninas na recepção do hotel e Micah já estava pronto para descer, mas agora era eu quem ainda estava enrolada em um roupão, dominada pela preguiça. Meus pés ainda doíam e estavam um pouco inchados, então os deixei descansando em cima de uma almofada enquanto Micah me prendia pela cintura, me deixando tão aconchegada em seu peito que seria difícil a preguiça me abandonar. Uma de suas mãos mexia em cabelo e a outra alisava minha barriga. Esse gesto já era tão comum que às vezes nem percebia.

‘Vocês compraram a Babies “R” Us toda’ Micah comentou olhando as sacolas espalhadas pelo chão do quarto ‘Sobrou alguma coisa pros outros clientes?’

‘Vivi deixou algumas sobras, mas nem tudo é meu, comprei um monte de coisa pra Milla também!’ Falei animada ‘Como não sabemos o sexo ainda, compramos tudo amarelo e branco’

‘A criança vai parecer um pomo de ouro’ Ele riu.

‘Como você é implicante... Não são tão amarelas assim!’ Ele riu mais alto e me beijou.

‘O bebê está quieto’ Comentou de repente, olhando para minha barriga ‘Ele costuma se mexer bem, não?’

‘É verdade, mas acho que ainda é cedo para ele se mexer o tempo todo’ Lembrei do que o médico falou e não me preocupei ‘Hoje ele ficou quietinho’

‘Já estão prontos?’ Ouvimos uma batida na porta e Micah a destrancou usando a varinha, deixando Tessa entrar ‘Evie, você ainda está assim?’

‘Ai desculpa, me distrai conversando’ Falei levantando apressada da cama e correndo pro banheiro ‘Fico pronta em um segundo!’

‘Tessa, é normal que o bebê não tenha se mexido hoje?’ Ouvi Micah perguntar.

‘Ele ainda não está na fase em que se mexe o dia inteiro e deixa Evie desconfortável, mas não é normal não ter se mexido o dia inteiro’ Senti o tom de voz dela preocupado e vesti a blusa depressa, abrindo a porta do banheiro. Tessa me encarou ‘Quando foi a última vez que você sentiu o bebê mexer?’

‘Ontem, na parte da tarde’ Respondi começando a me preocupar também.

‘Pode não ser nada, mas prefiro levar você até um hospital, só pra ter certeza’ Ela falou por fim e Micah já se pôs de pé ao meu lado ‘Vivi e Nikki podem segurar a reserva do restaurante, eu acompanho vocês’

Nem mesmo contestei e peguei minha bolsa em cima da mesa, saindo com ela. Tessa era médica e mesmo não sendo obstetra, estava acompanhando todo o processo da minha gravidez com o meu médico, então se ela achava que era melhor conferir se tudo estava bem, não tinha razão para discutir. Micah foi todo o caminho até o hospital segurando firme minha mão e podia sentir que ele estava preocupado, mas não deixava transparecer, talvez para me acalmar.

Tessa conhecia a obstetra de plantão naquele dia e passei a frente de algumas pessoas, então assim que chegamos fui direto para o quarto e esperei apenas alguns minutos até que a médica entrasse e depois que Tessa explicou rapidamente o que a motivou a me levar até lá, ela ligou o aparelho de ultrassom e começou a passar na minha barriga. Ela usou o aparelho por alguns minutos, sempre captando a mesma imagem, paralisada. Não conseguia ver tudo com clareza, mas podia identificar o formato do bebê, já inteiramente desenvolvido por fora.

‘Quando foi a última vez que o bebê se mexeu?’ Ela perguntou em um tom de voz que não passava nem calma nem preocupação.

‘Ontem, na parte da tarde’ Respondi tentando ver o que ela via no monitor, mas sem sucesso.

‘Nenhum sangramento? Espasmos?’ Neguei com a cabeça e ela parecia intrigada ‘vou fazer um zumbido’ Ela continuou passando o aparelho na minha barriga, fazendo um barulho alto. Repetiu três vezes e desligou.

‘Tem certeza que colocou na cabeça?’ Tessa perguntou já alarmada e comecei a me apavorar. A médica já estava limpando minha barriga ‘E quanto ao liquido amniótico? Se...’

‘Por favor, sentem-se, vocês dois’ Ela falou olhando cautelosa para Tessa e Micah não se moveu, mas apertou minha mão ‘Eu observei por mais de 5 minutos. Não há batimentos cardíacos, não há movimento do corpo. Não há resposta ao estimulo acústico’ Apertei a mão de Micah com força, sem precisar continuar ouvindo para saber o que ela diria ‘Eu sinto muito, mas o bebê está morto. Pode ter sido uma infecção, um acidente com o cordão, eritroblastose, pré-eclampsia, talvez nunca saibamos’ Vi Tessa desabar na cadeira, sem uma reação definida. Eu ainda olhava imóvel para a médica ‘Vou interná-la pra fazer uma indução’

‘Indução?’ Consegui perguntar por fim.

‘Temos que tirar o bebê rápido’ Ela explicou.

‘Eu vou entrar em trabalho de parto?’

‘Sinto muito’ Ela parecia sincera ‘Vou pedir uma epidural e fazer sua ficha’

‘A pressão dela estava boa, nunca teve febre nem nada. O que aconteceu?’ Tessa falou ainda sentada e olhando para a parede.

‘Faremos uma autopsia depois do parto para descobrir’ A médica respondeu e saiu da sala.

Micah ainda apertava minha mão com força, de pé ao lado da cama. Quando a porta se fechou ele me encarou com uma expressão de pura dor, mas ao mesmo tempo dura. Puxei-o para baixo e ele me abraçou. Comecei a chorar desesperada, sem conseguir falar.

ººº

Depois do que pareceu uma eternidade, Evie começou a ser preparada pelas enfermeiras para o parto. Vivi e Nikki já estavam no hospital, mas se encarregaram de avisar nossas famílias e não estavam no quarto quando a equipe medica chegou. Não sai do lado dela um segundo sequer, e nem Tessa, que pediu para acompanhar tudo. Eles a anestesiaram e Evie não parava de chorar. Aquilo estava me deixando desesperado, pois não havia nada que eu pudesse fazer para acalmá-la. Estava de mãos atadas e aquela sensação de impotência, quando a pessoa que você ama está sofrendo, devia ser a pior sensação do mundo.

Eu apertava a mão dela, nervoso, enquanto a via se esforçar ao máximo para empurrar o bebê para fora. Seu rosto estava molhado de suor e ela já se sentia fraca, sem forças. Encostou a cabeça na cama chorando, mas a puxei de volta, beijando sua testa.

‘Não consigo mais’ Disse chorando, olhando para mim suplicante.

‘Só mais um pouco, meu amor’ Apertei sua mão e a beijei ‘Já vai terminar, eu prometo’

‘Evie, só mais uma vez’ Tessa falou a olhando por cima da barriga ‘Mais uma e ele sai. Conte até três e empurre’

Ela respirou fundo e contou até três, reunindo toda força que ainda lhe restava. Evie gritava tanto que parecia ser uma dor horrível, era como se estivesse morrendo, mas segundos depois vi a médica puxar um bebê muito pequeno e leva-lo embora. Deitaram-no em uma incubadora e o cercaram rápido.

‘Acabou’ Beijei sua testa, também cansado ‘Acabou’

‘O cordão enroscou no pescoço’ A médica falou ainda perto de nós ‘Ele se virou e se enroscou no cordão umbilical. Não há o que fazer para evitar isso. Não é genético, não é uma infecção. É só má sorte’ Ela levantou e se juntou aos outros médicos.

Deitei a cabeça sobre a dela e ficamos encarando o cerco de médicos em volta do bebê, que não emitia som algum. Ela afirmava que a dor já havia passado, mas ainda chorava. Eu me esforçava ao máximo para transparecer calma e demonstrar força perto dela. Os médicos se afastaram do vidro e o vi de relance. Era tão pequeno e frágil, e não movia um músculo. A médica o pegou no colo e caminhou até a cama. Evie estendeu a mão para segura-lo e virei o rosto, me afastando sem conseguir olhar pra ele.

‘Me perdoe’ Evie disse alisando seu rosto, as lágrimas escorrendo ‘Eu te amo’

Ouvi-a dizer enquanto Tessa se aproximava tentando controlar o choro e abri a porta da sala com um soco, saindo para o corredor vazio àquela hora da noite. Minha vontade era chutar tudo que estivesse em meu caminho até me acalmar, mas não conseguia reagir a nada. Andei até as poltronas perto da janela sem rumo, não sabia para onde ir e nem o que fazer.

‘Micah?’ Ouvi a voz de Michael e me virei rápido, o encontrando parado a poucos passos de mim, os braços abertos e uma expressão de dor.

Cheguei até ele numa passada só e o abracei com força, sem conseguir mais segurar as lágrimas. Enterrei a cabeça em seu ombro e me permiti chorar como uma criança.

‘Está tudo bem, filho’ Michael batia de leve nas minhas costas com uma mão e segurava minha cabeça com a outra. Sua voz era triste, mas era bom ouvi-la ‘Vai ficar tudo bem’.

Thor, o filhote de Labrador que Micah me dera de natal, corria loucamente pelo jardim da mansão do meu avô, tentando abocanhar um passarinho. Eu estava sentada no gramado rindo da diversão dele e Micah estava deitado com a cabeça apoiada em minha barriga, alheio as constantes trombadas que Thor dava nas árvores. Ele agora estava grande, embora ainda fosse um filhote de 8 meses. Estava tão grande e estabanado que quando entrava furtivamente dentro de casa arrastava tudo que estava em seu caminho.

‘Gosto de Diego’ Micah falou distraído e desviei a atenção de Thor, que agora rolava na grama ‘É um nome legal, não acha?’

‘Merlin, você já está pensando em nomes?’ Eu ri ‘Micah, mal entrei no quarto mês, sequer sabemos se é menino ou menina’

‘E daí? Nada impede que já tenhamos nomes em mente. E logo dará para saber’

‘É, tudo bem, tem razão... E Diego é legal, mas já temos um na família. Quer outro? E se for tão endiabrado quanto o original?’

‘Pensando por esse lado... E Eduardo?’

‘Por que está escolhendo nomes latinos?’ Achei graça.

‘Porque sei que prefere esses, e gosto deles’

‘Certo. Eduardo é bonito, mas está pensando apenas em nomes de meninos? E se for uma menina?’

‘Que nome quer se for uma menina?’

‘Eva’ Respondi de imediato e Micah riu.

‘Está rindo de mim, mas também andou pensando, não é?’ Revirou os olhos e ele sentou ao meu lado ‘Imaginei que fosse escolher esse nome’

‘Se ela estivesse aqui estaria dizendo que ia adorar ver a cara de surpresa das pessoas ao descobrirem que ela já era avó “tão nova assim”. Ia adorar isso’ Falei imitando o jeito de falar da minha mãe e não pude deixar de rir ao perceber que minha voz soou exatamente igual à dela.

‘Se for uma menina, vai se chamar Eva então. E como sei que ela vai ser tão linda quanto à mãe, vai combinar com o nome’ Micah me abraçou e caímos deitados na grama, nos beijando.

‘Merlin, por favor, vocês não vão fazer outro filho, não é?’ A voz de Dario nos trouxe de volta a realidade e sentamos na grama sem graças.

‘Não, um só está ótimo’ Respondi ainda um pouco corada.

‘Ótimo. Tia Madalena está chamando para o lanche, e antes que diga que não está com fome, ela mandou dizer que não quer saber e que você vai lanchar com os outros, pois agora precisa se alimentar por dois’

‘Sua tia tem razão, vamos’ Micah ficou de pé e estendeu a mão para me ajudar.

‘Minha tia quer é me deixar gorda’ Resmunguei caminhando de mãos dadas com Micah e ao lado do meu primo de volta para a mansão ‘Aqui, Thor, vem garoto’

‘Esse estado é inevitável, prima’ Dario riu abaixando para pegar a coleira no pescoço de Thor, que tentou pulou em seu colo ‘Mas não liga, daqui a 5 meses passa’

‘Vou ficar horrível gorda’ Resmunguei outra vez.

‘Você pode inchar ou encolher, que pra mim vai continuar linda’

‘E se eu encolher e ficar com 20 cm?’

‘Então eu carrego você no meu bolso’ Micah respondeu beijando minha bochecha e eu ri, enquanto Dario revirava os olhos e ria também.

ººº

O mês de Julho estava passando com rapidez e Agosto estava batendo a porta. Micah agora morava comigo na casa de meu avô enquanto seu treinamento na Academia de Aurores não começava. Ele havia se transferido para a academia de Nova York depois que recebi a carta de admissão para a Escola Juilliard, assim não teríamos que ficar longe um do outro e ele poderia me ajudar muito mais durante os meses que ainda restavam até o nascimento do nosso bebê. Estávamos na cidade com Vivi, Tessa e Nikki por uma semana, pois eu ainda tinha uma audição em Juilliard que seria apenas de praxe e aproveitaríamos para começar a preparar as coisas, assim como também fazer algumas compras.

Já no 4º mês de gravidez e com minha barriga começando a ficar em evidencia, Vivi, Tessa e Nikki insistiam em começar a comprar coisas para o bebê e usaram a viagem à Nova York como a desculpa perfeita para não se desperdiçar uma oportunidade daquela, como Tessa repetia incansavelmente. As coisas de Juilliard e Academia de Aurores foram resolvidas num piscar de olhos e tudo que via na minha frente depois disso eram coisas de bebê. Broadway? Acho que nem passei perto dela.

‘Evie, quero lhe pedir uma coisa’ Vivi falou subitamente, enquanto atirava algumas roupas de bebê em um carrinho já abarrotado ‘E já vou lhe avisando que não aceito não como resposta’

‘Então não vai me pedir nada, vai exigir’ Brinquei e ela riu, mas em tom sério.

‘É, de certa forma’ Ela me encarou com o ar mais maternal que poderia assumir ‘Quero que venha morar comigo depois que o bebê nascer’ Ameacei interromper e ela ergueu a mão, me impedindo ‘Não adianta dizer que terão tudo sob controle, pois não terão. Posso ajudar bem mais do que imagina e você não será mais obrigada a dormir no alojamento de Juilliard no próximo semestre, então não tem desculpa’

‘Vivi, planejávamos resolver isso sozinhos’ Tentei recusar a oferta, embora fosse mesmo ser a melhor opção. Micah e eu éramos os únicos responsáveis por isso, a vida de mais ninguém deveria sofrer alterações em sua rotina ‘Não queremos atrapalhar ninguém’

‘Não vai atrapalhar e não estou propondo que vivam debaixo do meu teto eternamente, apenas nos primeiros meses. Até que possam se sustentar sozinhos e cuidar de um bebê sem esquecê-lo dentro de um cesto de roupa suja’ Fiz uma careta e ela riu ‘Horrível, eu sei, mas acontece’

‘Posso ao menos pensar?’ Perguntei me sentindo encurralada ‘Pelo menos conversar com Micah antes?’

‘Claro que pode’ Ela sorriu e atirou outro punhado de roupas no carrinho ‘Mas já sabe que vão ter que se mudar’

Revirei os olhos para ela, mas acabei rindo. Vivi era persistente e sabia que não haveria argumentos no mundo capaz de fazê-la mudar de idéia. Sabia também que não podia recorrer a Nikki e Tessa, pois tinha absoluta certeza que elas estavam juntas nisso. Terminamos as compras, demasiada exageradas, conversando sobre outras coisas sem voltar ao assunto. Quando saímos da loja, Micah, Nikki e Tessa já nos esperavam do lado de fora da loja, parecendo exaustos. Eles haviam percorrido toda a 5th Avenue completando uma lista de exigências de amigos e parentes.

‘Podemos ir para o hotel?’ Micah perguntou em tom suplicante quando me viu ‘Descansar um pouco antes de sair pra jantar, acho que não vou agüentar emendar’

‘Pretende se formar como auror com essa disposição, Micah?’ Tessa o provocou.

‘Prefiro enfrentar 100 dementadores a fazer compras, e ainda por cima pros outros!’ Ele fez uma careta de tédio e rimos.

‘Sim, vamos pro hotel, também não agüento emendar com o jantar’ Ele pegou minhas sacolas e segurou a minha mão.

O hotel não era longe e voltamos a pé. Combinamos de nos encontrarmos na recepção às 20h e cada um foi para o seu quarto. A cama enorme e confortável do quarto era tão convidativa que me atirei de costas nela assim que me livrei dos sapatos, abraçando os travesseiros macios. Devo ter adormecido, pois quando senti Micah se apoiando com cuidado em cima de mim, ele estava de banho tomado e muito cheiroso. Seus cabelos ainda molhados deixaram uma marca na minha blusa e ele usava apenas o roupão do hotel. Minhas mãos automaticamente seguraram sua nuca enquanto o beijava sem querer interromper e ele me prendeu contra o colchão. Acho que não estava tão cansada assim...

((Continua...))

Because of you I never stray too far from the sidewalk
Because of you I learned to play on the safe side so I don't get hurt
Because of you I find it hard to trust
Not only me, but everyone around me
Because of you I am afraid

Kelly Clarkson – Because of You



Terminava de limpar as manchas do sangue do Greg do quarto da Evie quando ouvi dois estampidos altos. Meu pai esbravejou, uma voz conhecida o mandou calar a boca e o barulho de alguém batendo no chão pode ser ouvido. Corri para a janela e vi meu pai caído no chão, Johann parado ao seu lado pronto para acertá-lo outra vez. Alguém subia as escadas correndo e vi o vulto de Sofia passar, entrando no quarto da Evie e com um aceno de varinha, fazer tudo parar dentro de uma mala. Corri até lá e a interceptei no corredor.

‘Nem tente impedir alguma coisa, Dimitri’ Ela disse em tom de aviso

‘Não quero impedir’ Respondi no mesmo tom ‘Ela está bem?’

‘Não. Mas vai ficar bem, porque agora vai morar conosco. Só vim buscar as coisas dela, pra Evie que não precisa mais pisar aqui’

‘Espera, não vai ainda!’ Corri até meu quarto e ouvi Sofia reclamar, mas voltei depressa com um álbum na mão ‘Aqui, é da Evie. São fotos da mãe dela. Ele jogou fora, mas eu peguei de volta e limpei. Achei que ela fosse querer quando voltasse’

‘Obrigada...’ Sofia folheou o álbum e sorriu pela primeira vez ‘Dimitri, espero que saiba que você vai sempre continuar sendo bem vindo na casa do meu pai. Quando puder, vá visitá-la. Vai fazer bem a ela’

‘Obrigado. Eu vou, assim que der’

Ela sorriu outra vez e agradeceu o álbum, descendo as escadas correndo. Mal chegou ao térreo e ouvi os estampidos outra vez, que indicava que os dois já tinham ido embora. Desci as escadas receoso e observei a silhueta do meu pai de longe. Esperei o tempo que achei seguro para que pudesse sair, e como ele não se moveu, fui até lá. Chequei se ele ainda estava respirando, mas parecia tudo normal. Não sabia o que devia fazer, e nem se queria. Continuei encarando a figura desacordada dele e quando ele se moveu, corri para fora de casa. Ele ia acordar com raiva e não ia estar por perto para pagar o pato. Quando voltei pra casa, horas depois, já estavam todos dormindo outra vez...

ººº

‘A senhorita Stanislav já vai descer’

Agradeci com a cabeça e a governanta me indicou a sala de visitas com a mão. Fiquei esperado sozinho naquela sala imensa e observava as coisas ao meu redor. Sempre me senti um pouco intimidado pela casa, tudo nela soava imponente. Olhava com curiosidade para uma pintura na parede quando Johann passou pelo corredor e voltou quando me viu. Levantei depressa do sofá, desconfortável.

‘Dimitri!’ Me saudou animado, apertando minha mão ‘Que bom que veio até aqui. Que bom que veio’

‘Estou bem, na medida do possível’ Respondi um pouco desanimado ‘Mas em amanhã voltamos a Durmstrang, então as coisas vão melhorar’

‘Dimitri!’ Ouvi a voz de Evie me gritando. Ela veio correndo até mim e me abraçou. Johann saiu para nos deixar a sós ‘Não sabe como estou feliz em ver que está bem!’

‘Também estou feliz em ver que está bem’ A abracei mais apertado e depois a encarei ‘Você está bem agora, não é?’

‘É, agora estou bem sim’ Ela sentou no sofá e me puxou ‘Vovô disse que vou ficar morando com ele agora, disse que não vai mais me deixar sair’ Ela riu

‘Mudou seu nome já? A governanta disse o sobrenome do seu avô’

‘Não quero nada que me lembre dele, nem mesmo o nome’

‘Todo mundo já sabe, não é?’

‘Na verdade, não. Só o vovô, tio Johann, tia Sofia e o Micah. Vovô achou melhor não contar aos outros ainda, eles têm me dado muita força. Tia Sofia e Micah nem foram embora, ficaram direto’

‘Micah? O que ele faz aqui?’ Disse torcendo o nariz e ela fechou a cara

‘Não faça isso, Dimitri. Max e ele implicam com Micah sem qualquer motivo, não quero que você faça o mesmo. Ele é meu namorado agora, essa foi a escolha que eu fiz e gostaria que você respeitasse isso. Não me interessa o que ele e Max pensam, mas o que você pensa tem muita importância pra mim. Não estou pedindo que sejam amigos ou que você o idolatre, mas ao menos respeite. Não julgue as pessoas sem conhecer antes’

‘Desculpa’ Me senti um idiota de verdade. Nunca tive motivo pra implicar com ele ‘Fui atrás do Max, eu acho. Ele o odeia de verdade, sabia? Fala coisas horríveis, mas nunca entendi o motivo’

‘Não existe um motivo, por isso você nunca entendeu’

‘É, acho que não. Não vou implicar mais, prometo’

‘Obrigada, significa muito pra mim’ Ela sorriu e foi bom vê-la sorrindo assim, pois parecia feliz ‘Agora que tal vermos o que a Maria está fazendo na cozinha? Sinto cheiro de bolo...’

‘Ah, o bolo da Maria! Meu favorito!’

Levantamos do sofá depressa e corremos até a cozinha, onde um bolo quentinho acabara de sair do forno. Passamos o resto da tarde por lá mesmo, conversando. Só voltei pra casa quando escureceu, e não consegui dormi. Contava os minutos para o trem partir e eu voltar a ver o lugar onde me sentia em casa de verdade. E se pudesse, não sairia mais de lá.

Restavam apenas 2 dias em Orlando antes de pegarmos estrada até Miami e metade do grupo optou por voltar aos parques que mais gostaram, mas não fui com eles. Era dia de folga do Micah e íamos sair, e enquanto esperava ele me buscar, conversava deitada no chão do quarto com Pilar e Marta, que também não quiseram sair.

‘Ele está muito esquisito’ Pilar comentou deitada de bruços ‘Nos dá bom dia, sorri, conversa. Parece até que está... Se divertindo!’ E rimos da entonação dela

‘Meu irmão diz que ele está mudando’ Marta parou de rir e falou séria

‘Isso é verdade, pois conversamos bastante da estação até a casa do vovô, ele estava bastante falante no carro’

‘Tem alguma coisa errada, não é possível esse menino mudar da água pro vinho!’ Pilar ainda soava perturbada e rimos. Helena pigarreou no canto do quarto. Nos calamos e olhamos para ela.

‘Só porque uma pessoa está tentando mudar para melhor não significa que alguma coisa está errada’ Comentou com desdém nos olhando atravessado por cima do livro

‘Ora, ora... Ela tem língua!’ Pilar provocou, mas não ri e a cutuquei

‘Do que está falando, Helena?’ Perguntei sem tom de deboche e ela fechou o livro

‘Dario está tentando fazer parte da nossa família, mas ninguém parece se importar. Ele não é mais aquele garoto esnobe, como Hanna ainda é. Ele mudou muito e duvido que tenham notado, mas ele nem fala mais direito com ela. Os “super-gêmeos”, como vocês gostam de dizer, não existem mais. Cada um escolheu o seu lado, e Dario quer fazer parte do nosso, entrar nesse circulo de primos que é tão unido e do qual ele nunca fez parte. Mas se uma pessoa tentar mudar é logo tratado como um esquisito e ninguém ao menos tenta entender o porquê’

‘Ninguém aqui está julgando ele, só estávamos conversando’ Marta se defendeu

‘Afonso e eu somos os únicos que conversamos com ele, nenhum de vocês dá abertura para que ele mostre que mudou’ Helena rebateu ‘Alguma vez desde que chegamos aqui vocês já chegaram nele e perguntaram como ele está?’ Riu ‘Não, é claro que não. Não é a toa que ele acha que nenhum dos primos o quer por perto e que não tem com quem conversar’

‘Então é por isso que...’ Pilar pensou alto e a encaramos curiosas ‘No enterro da vovó ele era o mais abalado, de longe. Quando fui falar com ele, Dario não me deu bola e saiu andando, mas antes disse algo como “não tenho mais com quem conversar, ela era a única que me ouvia”. Vovó conversava bastante com ele, não é?’

‘Sim, ela sempre me dizia que Dario passava horas conversando com ela’ Comentei sem graça por estar rindo dele antes

‘Por que não experimentam dar uma chance a ele?’ Helena abriu o livro novamente ‘Conversem com ele, se aproximem. Podem se surpreender’

‘Da licença’ Ouvimos batidas na porta e era Dario ‘Evie, seu namorado chegou. É melhor descer depressa, tio Johann está indo para a sala agora’

‘Ok, obrigada’ Apanhei a bolsa da cama depressa e parei na porta ‘Ei Dario, vai conosco mais tarde no Pleasure Island? Vamos só Pilar e eu, Marta não entra’ Falei rindo e ela me olhou torto

‘Injusto, vou ter que ir a um jogo de basquete!’ Reclamou e Pilar a sufocou com uma almofada

‘Ah, claro, vou sim’ Respondeu pego de surpresa, mas parecendo satisfeito. Sorri.

‘Ótimo, até de noite!’

Sai do quarto e desci as escadas depressa. Ultrapassei tio Johann no meio dela e agarrei a mão de Micah o puxando para fora da casa antes que ele chegasse ao hall e começasse mais um inquérito.

~*~*~*~*~*~

Passamos a tarde toda na casa dos seus pais adotivos em Daytona Beach. Andrea, a mãe dele, é uma médica de pronto-socorro muito simpática. Michael, o pai, era escritor. A maioria de seus livros era de suspense e Micah parecia já ter lido todos mais de uma vez. Tinha também o Wes, outro filho adotivo deles da nossa idade. Wes era do Alabama e como ele mesmo gostava de dizer, um perfeito caipira. Passou o dia todo de jeans, cinto com fivela de cavalos, camisa branca, chapéu e meia. ‘Não tenho permissão de entrar com as botas sujas dentro de casa’, ele se justificou quando rimos do traje.

E claro, tinha também o mais fofo de todos, Connor. Ele era irmão de verdade de Micah, e logo que chegamos me brindou com uma pérola que vai me render provocações por um longo tempo. Segundo ele, a bola que me atingiu na Califórnia há um ano não foi acidental, mas sim Micah que pediu para ele me acertar. Esperei pacientemente até ter a oportunidade de cutucá-lo, e foi apenas quando já havia anoitecido, enquanto estávamos deitados na areia da praia conversando esperando a hora de ter que voltar para casa.

‘Quer dizer que fui nocauteada de propósito?’ Perguntei fingindo estar séria e ele acreditou, pois gaguejou para começar a falar

‘Não é bem assim, Connor tende a exagerar as coisas. Não pedi que ele a nocauteasse, apenas esbarrasse em você’

‘E posso saber por quê?’

‘Porque via você por todo o canto na Califórnia e a achei linda logo de cara, mas quando te vi pela 3ª vez em duas semanas, pensei: tenho que falar com aquela garota. Mas se chegasse abordando você do nada, ia me achar um convencido idiota’

‘Verdade, ia mesmo’

‘Tinha certeza disso, então pedi ao Connor para correr na sua direção e dar um esbarrão de leve, que ai ia lá e pedia desculpa por ele e puxava papo. Mas Connor é um estabanado, acabou nocauteando você’

‘Não só a bola me acertou com força como ele caiu por cima de mim. Foi violento’ Ri

‘Desculpa por isso, não era mesmo a intenção’

‘Tudo bem’ Me ajeitei na areia e deitei por cima dele ‘Valeu a pena’

‘Ô se valeu’ Ele me virou depressa me prendendo na areia ‘Foi a bola mais bem arremessada da minha vida’

Ele deu um sorriso sacana e beijou meu pescoço, não me deixando sair com o peso do seu corpo. Mas eu não queria ir a lugar algum.

~*~*~*~*~*~

Micah me deixou em casa minutos antes do toque de recolher imposto pelos meus tios, mas nem ao menos tirei a bolsa do ombro. Pilar e Dario já estavam prontos para sairmos e notei que tio Heinrich e tia Sofia também estavam arrumados para irem conosco. Os demais iam assistir a um jogo de basquete do Orlando Magic. Pleasure Island era uma área de Downtown Disney repleta de boates e escolhemos a BET SoundStage Club para aproveitar a noite. Já estávamos dançando há horas quando veio o choque. Nossos tios sumiram e Dario puxou um maço de cigarros do bolso e acendeu um, enquanto ocupava a outra mão com uma bebida cheia de fumaça. Pilar me puxou pela mão para o outro lado.

‘Nunca achei que fosse dizer isso, mas Helena tinha razão. Esse menino ai é outra pessoa!’

‘Estou vendo, porque o Dario de antes levaria um tapa do tio Ivo se fumasse ou bebesse’ Disse ainda chocada olhando para ele ‘Quando começou a revolução?’

‘Não sei, mas conversei com ele essa tarde e ele até que é divertido’

‘Meninas, venham depressa!’ Dario envolveu os dois braços em volta dos nossos pescoços rindo ‘Tio Heinrich acabou de subir no palco e está imitando o DJ com passos de Hip Hop’

‘Merlin, por que ele sempre me envergonha quando saímos juntos?’ Pilar ergueu os braços, cansada, e rimos enquanto a seguíamos até o palco

Abrimos caminho entre as pessoas e não foi difícil encontrá-los. Tia Sofia se dobrava de rir na frente do palco enquanto nosso tio dançava em cima dele, totalmente fora do ritmo. Assim que nos viu, desceu correndo e agarrou a mão de Pilar e Dario, os arrastando até lá em cima para tocar os instrumentos que respingavam tinta. Parei ao lado da minha tia e ficamos rindo dos três sujos de tinta da cabeça aos pés e brilhando no escuro, ao mesmo tempo em que nos escondíamos para não sermos levadas até lá também. E enquanto via os três no palco, percebi que aquela era a primeira vez que via um sorriso descontraído e sincero no rosto de Dario. Era a primeira vez que ele se divertia de verdade junto da gente, e fiquei feliz. Acho que finalmente íamos começar a nos entender...

‘Praia é muito melhor, podemos tomar sol’ Mario argumentava mostrando alguns panfletos ‘Olha essa água cristalina!’

‘Temos praia na Espanha, quero ir esquiar’ Afonso rebateu e Santiago concordou com a cabeça ‘Podíamos ir para Aspen’

‘Não quero ver neve, quero ver o Mickey!’ Filipe falou alto. Luísa e Letícia bateram palmas animadas.

‘Isso fica na Flórida, não é?’ Perguntei virando para Marta e ela confirmou com a cabeça ‘Ahn, eu também quero ir para a Disney!’ Falei depressa levantando a mão

‘Qual é, Evie!’ Diego atirou uma almofada em mim ‘Pensei que quisesse praia!’

‘Na Flórida tem praia, energúmeno’ Dario falou sarcástico e Diego atirou outra almofada ‘E Evie tem motivos para querer ir para a Flórida’

‘É, o namorado dela está lá’ Pilar falou com uma voz debochada e todos começaram a rir

‘Ok, já chega, silêncio!’ Tia Madalena soltou alguns estalos com a varinha e nos calamos ‘Vamos fazer uma votação, assim ninguém reclama de injustiça. Todos a favor de Cancun?’ Mario e Diego levantaram a mão, sozinhos ‘Aspen?’ Afonso, Santiago e Helena ergueram as mãos ‘Ok, e Disney?’

Levantei logo as duas mãos e Filipe, Luísa e Letícia fizeram o mesmo. Marta e Pilar também levantaram a mão em apoio e me surpreendi ao ver Dario com a mão erguida também. Olhei para ele espantada e ele riu, dando de ombros.

‘Disney então!’ Batemos palma comemorando e os outros vaiaram ‘Coloquem apenas roupas leves na mala, faz muito calor na Flórida nessa época’

Os pequenos levantaram correndo do sofá e subiram as escadas desabalados, com tia Sofia correndo atrás para impedi-los de fazer as malas sem supervisão, e os outros foram subindo sem pressa. Agora só precisava descobrir um jeito de encontrá-lo em um lugar grande como a Flórida...

~*~*~*~*~*~

Viajamos para Orlando dois dias depois para passarmos 15 dias. A intenção era viajar de carro por mais 10 dias depois, pelo resto da Flórida, como Daytona Beach, Key West e Miami. Já estávamos em Orlando há quase uma semana, e visitávamos o Magic Kingdom. Éramos muitos, então nos dividimos e fiquei com Pilar, Marta, Dario, Diego e tio Johan. Fazia muito calor e tinha muita gente, as filas eram quilométricas e já estávamos cansados de perder tempo nelas, então decidimos apenas passear pelo parque.

‘Ele não disse onde estava morando agora?’ Pilar perguntou enquanto caminhávamos mais afastadas dos outros

‘Acho que ele nem sabia direito. Se me enviou uma coruja, a carta está na casa do vovô esperando a gente voltar’ Respondi desanimada

‘Algo me diz que você vai encontrar ele por acaso, Evie...’

Dario passou do nosso lado dando uma risadinha e Marta riu também. Pilar e eu ficamos sem entender, quando uma voz perto de onde estávamos chamou minha atenção. Parei de andar no mesmo instante.

‘Já resgatamos o Pluto do Carrossel, mas mande outro porque aquele desmaiou’ Ouvi a voz de Micah e virei depressa o procurando ‘Está muito calor, eles não estão agüentando muito tempo. Vou tirar meus 15 minutos de folga, depois vou monitorar a Space Mountain’

‘MICAH!’

Pilar gritou do meu lado e ele olhou, abrindo um sorriso misturado com espanto quando me viu. Fui até ele e o abracei, e logo o abraço se transformou em um beijo demorado.

‘Oi’ Falei quando nos afastamos, mas ele não me soltou ‘O que está fazendo aqui?’

‘Michael me arrumou uma vaga como cast member. Mandei uma coruja avisando onde estava, mas pelo visto não recebeu’

‘Não, viajamos logo no 3º dia. Temos mais 10 dias aqui’

‘Só isso?’ Ele pareceu indignado ‘Muito pouco tempo, então temos que aproveitar’

‘Como, se você está trabalhando?’

‘Tenho duas folgas nesses 10 dias, e todas as noites livres’ Ele me abraçou e acenou para Pilar ‘Acho que sua prima está nos chamando’

Voltamos até onde Pilar, Marta e Dario estavam parados e em um instante meu tio surgiu do nada com Diego. Foi logo cruzando os braços e encarando Micah de cima a baixo.

‘Quem é você, rapaz?’ Perguntou fazendo pose de tio protetor

‘Você já conhece o Micah, tio. Não comece, por favor’

‘Não, você apresentou ele como seu amigo, e agora pouco estavam se beijando. Faça o favor de apresentar outra vez’ Meus primos sufocaram risadas e revirei os olhos

‘Tio, esse é o Micah, meu namorado. Micah, meu tio Johan’ Falei entre dentes e ele estendeu a mão ao meu tio

‘Ah, agora sim, muito prazer, Micah’ tio Johan sacudiu o braço dele com força e Dario não conseguiu segurar a risada ‘Vou estar de olho, Evie é minha protegida’

‘Desde quando?’ Perguntei rindo

‘Desde que seu pai não está aqui para fazer isso’

‘Como se fosse adiantar’ Respondi debochada e Micah me puxou para trás

‘Vamos dar uma volta? Tenho mais 10 minutos de folga’ Concordei com a cabeça e ele puxou 5 bilhetes do bolso e estendeu para Pilar ‘Aqui, usem isso para furar fila na Space Mountain, se chama fastpass. É para daqui a 10 minutos, entrego a Evi a vocês a tempo’
Ele nem ao menos deixou meu tio reagir e me puxou para longe deles. Quando já estávamos afastados e camuflados pela multidão, me puxou para um beijo.

‘Quer dizer então que sou seu namorado?’ Provocou

‘Da minha parte sim, da sua que já não sei’ Provoquei de volta. Ele me abraçou apertado

‘Se dependesse de mim, você já seria minha namorada há meses’

‘Então no que depender de mim, vamos continuar assim por um bom tempo’ Beijei-o outra vez e encostei a cabeça em seu peito

‘Que tal continuarmos assim até ficarmos bem velhinhos?’

‘Que tal conversarmos sobre isso quando você me levar pra jantar hoje à noite?’ Disse desconversando e ele riu

‘Intimação aceita, pego você às 21h’ Ele jogou o braço em volta do meu ombro e envolvi o meu na sua cintura, sorrindo ‘Melhor voltarmos, até atravessarmos essa multidão já passaram os 10 minutos e minha folga termina’

‘Você vai ter que compensar o tempo que não vamos nos ver todas as noites’

‘Não se preocupe quanto a isso’ Ele me beijou e riu ‘Você será muito bem recompensada’

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?

Snow Patrol – Chasing Cars

Os últimos dias de férias na Califórnia poderiam ter sido melhores, na opinião de Evie. Entre os intervalos entre os jogos e as investidas de Josh para reconquistar a namorada, ele e os irmãos não paravam de brigar. Margo sempre intervinha por Josh, o que acabava despertando mais raiva em Kevin e Abigail e sempre desencadeando novas brigas. Martin era o único que permanecia afastado das discussões, por saber que era uma batalha perdida. Max parecia se divertir vendo as discussões, mas Evie já estava perdendo a paciência.

Josh, Kevin e Abby brigavam pela enésima naquele dia e percebendo que de nada adiantaria tentar intervir, Evie saiu batendo a porta da sala sozinha pensando em caminhar um pouco na praia. Era o ultimo dia de férias em Los Angeles, naquele mesmo dia à noite ela estaria pegando o avião de volta para a Bulgária e preferia que suas ultimas horas em Los Angeles fossem um pouco mais agradáveis.

Há anos que ela passa as férias com Josh, mesmo antes de se tornarem namorados, e isso dava a ela a tranqüilidade de poder passear pelas ruas sem se preocupar em não encontrar o caminho de volta. E ela tinha até seu lugar favorito para relaxar: um banco na calçada de Venice Beach, de frente para o mar. Evie podia sentar ali e passar horas observando as pessoas entrando e saindo da água, apenas aproveitando a brisa fresca que batia em seu rosto, muito diferente da brisa gelada de Durmstrang.

Ela já estava cansada de ler, e resolveu caminhar entre as palmeiras na areia da praia. Mas não deu nem três passos quando viu um vulto correndo na sua direção, e em seguida sentiu algo bater com força na sua cabeça, a derrubando no chão de imediato. Sua visão embaçada permitiu apenas distinguir que haviam dois garotos ajoelhados na sua frente, um maior que o outro.

‘Oi, consegue me ouvir?’ O maior falou em um tom de voz preocupado

‘Ela está viva?’ Evie ouviu uma voz culpada de criança ‘Desculpa, não queria perder a bola’

‘Tudo bem, Connor, você não fez por mal’ o outro tornou a falar ‘Vá procurar a bola’

‘Ai minha cabeça... O que aconteceu?’ Evie tentou levantar, mas estava tonta

‘Meu irmão não conseguir agarrar a bola e ela acabou derrubando você’ o menino a ajudou a se levantar. Era o garoto do jogo de basquete ‘Está se sentindo bem? Como se chama? Quantos dedos têm aqui?

‘Estou bem, me chamo Evangeline, mas todo mundo me chama de Evie’ Falou passando a mão na cabeça e tentando racionar ao se dar conta de quem a ajudava a se levantar ‘E tem três dedos’

‘Não precisava falar a quantidade de dedos, pois se lembrou de um nome grande assim, é porque não está desorientada’ ele falou brincando e ela riu

‘Foi você que atirou a bola pra ele?’ Ele confirmou com a cabeça e ela continuou ‘Seu braço é forte então, porque vi você tão longe!’

‘Desculpa. Está se sentindo bem mesmo?’ Ele tinha um tom de voz preocupado e ela parecia estar gostando

‘Sim, não precisa se preocupar. Vou sobreviver’ disse brincando

‘Posso acompanhar você até sua casa se quiser. Você não tem cara de ser daqui, pode ficar tonta e se perder em Los Angeles’

‘Não sou daqui, mas venho todo ano, acho que estou familiarizada com as ruas’ Evie respondeu sorrindo ‘E meu irmão está vindo ali, volto com ele’ ela apontou para um garoto caminhando na direção deles

‘Bom, nesse caso vou indo’ o garoto pegou a prancha enterrada na areia e chamou o irmão outra vez ‘A gente se vê por ai, Evie’

‘Acho difícil, vou embora hoje à noite’ ela não sabia porque estava dizendo isso, mas não conseguir se conter

‘Tenho um pressentimento que ainda vamos nos ver outra vez’ o garoto respondeu e se misturou às pessoas que passavam, desaparecendo antes que ela pudesse responder

Max alcançou Evie um minuto depois e sua cara de espanto denunciava que a bola deixara uma marca na testa da garota, mas ela não estava se importando com isso. A única coisa em sua mente naquele momento era que ela ia embora à noite e acabara de perder a chance de saber o nome do menino que tanto procurou.

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina, paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Palavras Ao Vento - Cássia Eller


‘E então? O que quer fazer hoje?’

Aquela pergunta se tornara freqüente desde que Evie exigiu mais atenção do namorado. Na primeira semana ela estava adorando toda a atenção que lhe era dedicada, Josh sempre foi muito atencioso e voltara a ser o namorado de alguns meses atrás. O problema era que toda aquela dedicação começava a cansá-la. E Evie sentia-se extremamente mal por estar se irritando com ele, pois fora ela mesma quem reclamara antes. Mas estava realmente ficando enjoativo.

‘Podemos ir naquele restaurante novo, ou ficar em casa sem fazer nada, só passando mais tempo a sós’ Josh a abraçou e a beijou ‘O que prefere?’

‘Prefiro que você vá ao jogo de hoje’ Respondeu sem perceber

‘Como é?’ Ele pareceu confuso. Não era ela quem não queria mais ouvir falar em Beisebol?

‘Acho que fui um pouco exagerada quando disse que não queria mais que você fosse aos jogos’ Mentiu, mas não poderia dizer a verdade ‘Nossas férias acabam em quatro dias e você não vai querer perder o ultimo jogo que pode assistir, não é?’

‘Não. Mas prefiro ficar com você. Prometi que não ia mais e vou cumprir minha palavra’

‘Não Josh, tudo bem’ Evie tentava não soar desesperada ‘Estava pensando em visitar a Vivi hoje, e sei que você detesta me acompanhar quando vou a casa dela. Vá ao jogo, não me importo, de verdade. Amanhã fazemos alguma coisa’

‘Tem certeza disso?’ Ele olhou para ela desconfiado ‘Porque não me importo de perder o jogo por você’

‘Tenho’ Ela o beijou e levantou do sofá, pegando a bolsa ‘Vá logo, ou vai perder o início da partida’

Josh pulou do sofá sorridente e em menos de cinco minutos já estava com as chaves do carro e os ingressos na mão. Ele se despediu dela e correu para a garagem. Se dirigisse rápido, ainda encontraria Max e Kevin do lado de fora do Dodgers Stadium. Evie esperou até que ouvisse o carro saindo da casa e foi até o quarto. Ela não tinha a menor intenção de visitar Vivian, sabia que ela não estava na Califórnia aquele verão ou teria feito a visita logo no primeiro dia. Tudo que ela queria era passar uma tarde sem que se sentisse sufocada. Queria andar a toa na rua, sozinha, sem nada planejado, mas nunca poderia dizer isso a ele ou o magoaria.

Depois de vestir uma roupa mais confortável, ela saiu da casa dos Pace sem lugar certo para ir. Mas enquanto fazia o que deveria ser uma caminhada sem rumo, ela logo percebeu que sabia aonde queria chegar. Antes mesmo que pudesse assimilar o que estava fazendo, já havia chegado à mesma quadra onde ficou sentada sozinha enquanto Max, Josh e sua família almoçavam, logo no primeiro dia em Los Angeles.

Naquele dia, no entanto, eram pessoas diferentes que jogavam. Ela logo reconheceu Martin em meio aos garotos, jogando no time com camisetas brancas dos Lakers. E no time adversário, com as camisetas amarelas do mesmo time, Evie encontrou o que procurava. Ela não queria admitir, e talvez nunca o fizesse, mas havia caminhado até o calçadão da praia, e em especial para as quadras de basquete de rua, na esperança de rever o garoto que lhe chamou a atenção.

Martin viu que ela assistia ao jogo e acenou, indicando que falaria com ela quando terminasse. Ela ficou no mesmo lugar até que o jogo acabasse apenas observando os garotos. Quando a partida foi encerrada e Martin correu até ela, o garoto desapareceu. Era como se ele nem estivesse jogando segundos antes, dada a maneira com que evaporou de seu campo de visão. ‘Droga’ murmurou sozinha.

‘Pensei que estaria em alguma gôndola hoje’ Martin tirou uma toalha da mochila e secou o rosto, rindo ‘Ou a programação de hoje era um jantar à luz de velas?’

‘Pare com isso’ Disse séria, mas não segurou o riso muito tempo ‘Seu irmão estava me levando a loucura! Ele já conjurava um lenço para mim, antes mesmo que eu espirrasse! Caso você espirre, amor... Sou precavido’ Ela imitou a voz de Josh e Martin riu, mas sentiu-se culpada em seguida

‘Meu irmão é um pouco carente’ Ele mantilha a toalha na cabeça enquanto falava ‘Não entendo bem o porquê, mas é. E se você exige atenção dele, ele acha que entende a sensação de abandono e exagera um pouco. E especialmente quando se trata de você. Podemos não nos entender sempre, mas sei o quanto meu irmão gosta de você, Evie’

‘É, eu sei disso’ Disse se sentindo mais culpada ainda por estar reclamando do excesso de atenção ‘Não é justo eu reclamar, sei que ele só queria me agradar’

‘Não se julgue por não gostar dele do mesmo jeito que ele gosta de você’ Falou enquanto pegava a garrafa de água na mochila e bebia ‘Isso é normal, você não é obrigada a sentir o mesmo que ele’

‘Que história é essa, Martin?’ Evie tentou soar indignada, mas acabou deixando transparecer que estava mesmo era surpresa com a indireta dele ‘Você é o que? Psicólogo?’

‘Ainda não, mas pretendo ser um daqui a três anos’ Disse rindo do espanto dela

‘Tem alguma coisa que você esqueceu de me contar?’

‘Tem sim. Estou cursando psicologia na UCLA’ Martin olhava para a areia da praia enquanto falava ‘Comecei ano passado, já terminei dois semestres’

‘Martin, que demais! Mas por que não me contou antes?’

‘Porque ninguém sabe’ Ele agora a encarava ‘Mamãe acha que é perda de tempo ter uma formação em algo trouxa, mas eu não concordo. E se ela souber, vai me infernizar até que eu desista’

‘Mas se Margo não sabe, como está pagando a Universidade?’

‘Paul. Ele também acha importante me especializar em algo tanto no mundo bruxo quanto no trouxa, e está pagando. Fizemos um trato: ele não conta nada a minha mãe, e quando começar a trabalhar, pago a ele tudo que ele gastar comigo durante meus quatro anos lá’ Ele agora sorria um pouco ‘Ele não gostou muito da parte onde disse que pagaria, mas forcei-o a aceitar’

‘Então só ele sabe? E agora eu?’

‘Sim, é por ai...’

‘Que honra! Bom, então não se preocupe que não vou contar nada a ninguém!’ Ela sorriu ‘Mas quero desconto nas consultas’

‘Você vai ser minha primeira paciente. E podemos começar agora, já que acertei algo que você não quer admitir pra si mesma, certo?’

‘Talvez seja melhor esperar até que você esteja formado’ Evie fingiu estar indecisa e Martin riu

‘Tudo bem, eu espero. Talvez essa seja minha tese de conclusão de curso...’

‘Engraçadinho’ Disse tomando a garrafa de sua mão e espirrando água nele ‘Vamos dar uma volta, as conversas tendem a serem mais agradáveis e fáceis enquanto estamos caminhando’

Eles levantaram do banco saíram para dar uma volta, passando por ruas que ela conheceu muito tempo antes, quando a vida era simples, quando nada era tão confuso e complicado. E então ela percebeu que os bons tempos tinham terminado. As coisas haviam mudado e nunca mais seriam as mesmas.